A ponte que liga as aldeias vizinhas de Sarilhos Grandes (no concelho do Montijo) e Sarilhos Pequenos (no concelho da Moita) é uma estrutura em terra batida que atravessa uma cala (braço de água) do estuário do Tejo. A cala encontra-se parcialmente rodeada de vegetação de sapal, a qual cresce também ao nível da água nas bermas da ponte. A ponte é propriedade privada e destina-se, do ponto de vista do seu proprietário, a dar acesso a um moinho de maré situado a seu meio; mas foi também desde sempre de uso público. A ponte tem largura insuficiente para a passagem de um veículo automóvel. As aldeias situam-se a uma distância inferior a 2 quilómetros uma da outra, tendo a ponte cerca de 100 metros de comprimento.

A QUERCUS critica neste comunicado a proposta da Câmara Municipal (CM) da Moita no sentido de construir uma nova ponte sobre a actual. A nova ponte teria estrutura em betão e permitiria o tráfego automóvel directo entre as duas aldeias.

A QUERCUS considera, de acordo com uma visão moderna, a qual integra a necessidade de preservar as zonas húmidas restantes, que é totalmente inapropriado construir estruturas pesadas sobre tais áreas, ainda para mais quando estas se encontram rodeadas de um ecossistema tão rico e importante quanto um sapal o é. Deste ponto de vista, que é o nosso, temos que rejeitar liminarmente as intenções da CM da Moita. Para lá da degradação/destruição da zona húmida decorrente da própria estrutura física da nova ponte, o tráfego automóvel que por ela passaria constituiria uma fonte de poluição do ar, e de ruído, que consideramos incompatíveis com a preservação deste valioso património natural, e com o seu potencial usufruto pela população.

A QUERCUS considera que a ponte actual pode ser melhorada com o fim de permitir um atravessamento mais cómodo e seguro entre as freguesias, mantendo-se no entanto as características de acesso limitado a peões e a veículos de duas rodas, eventualmente com reboque. Uma estrutura pesada, que permita o trânsito de veículos com várias centenas de quilos, é por nós rejeitada.

A QUERCUS encara com cepticismo a conveniência ou necessidade da construção de uma estrada para o tráfego automóvel ligando directamente as duas aldeias. Tal estrada iria, ao evitar a cala entre as povoações, atravessar campos de cultivo, destruindo então valores naturais e sociais relevantes, e originando custos financeiros (expropriações, etc.) elevados. Não é para nós líquido que a procura existente para tal estrada (o tráfego automóvel entre as duas povoações) a justifique. O investimento a fazer beneficiaria sobremaneira as classes sociais mais abastadas – as possuidoras de automóvel – implicitamente desfavorecendo as classes mais pobres. A estrada criaria condições para uma maior apetência pelo transporte automóvel, em detrimento de formas de mobilidade menos poluentes. A QUERCUS sugere às CM do Montijo e da Moita que ponderem cuidadosamente a necessidade/conveniência da construção de tal ligação rodoviária, antes de a ela se abalançarem.

Lisboa, 6 de Janeiro de 2000

A Direcção do Núcleo de Lisboa

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