Quercus faz balanço da intervenção no Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros, que cumpriu recentemente 35 anos

 

pnsacComemorou-se, no passado dia 4 de Maio, o 35º aniversário da criação do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), pelo que a Quercus faz uma retrospetiva do que foi feito de positivo e negativo nesta Área Protegida e traça cenários com base na definição de ameaças e na identificação de oportunidades.

Em 1979, a criação do PNSAC teve como objetivos principais promover a proteção dos aspetos naturais existentes, a defesa do património arquitetónico e cultural, o desenvolvimento das atividades artesanais e a renovação da economia local, bem como a promoção do repouso e do recreio ao ar livre. Passados 35 anos, deparamo-nos com um cenário em que é notória a dificuldade que os serviços do Estado tiveram em suster as pressões que as diversas atividades económicas geradoras de impactes ambientes negativos exerceram sobre um território que possui um património geomorfológico único e que, no seu subsolo, possui igualmente um dos mais importantes aquíferos do país.

Como resultado desta incapacidade, as pedreiras expandiram-se, fragmentando a paisagem e os habitats, instalaram-se aerogeradores na Serra dos Candeeiros, os quais geram impactes cumulativos com a presença da indústria extractiva, e a Área Protegida foi atravessada por uma auto-estrada, junto à serra de Aire. Um aspeto que demonstra a ineficácia dos instrumentos de gestão territorial e das diversas políticas públicas prende-se com a degradação da qualidade da água no aquífero, situação que impede que a EPAL hoje utilize a água do aquífero cársico para abastecimento público, como aconteceu durante mais de 100 anos. Também o abandono da atividade agrícola e da pastorícia teve resultados ambivalentes: por um lado, permitiu a recuperação da floresta autóctone, mas, por outro, fez regredir habitats semi-naturais de elevado valor ao nível europeu e potenciou a propagação dos fogos.

Todavia, e para além do PNSAC continuar a possuir um património geomorfológico, espeleológico e paleontológico importantíssimo, onde se destacam o Polje de Mira-Minde e as nascentes associadas (complexo hoje incluído no sítio RAMSAR), as pegadas de dinossáurios da Serra de Aire ou a Gruta “Algar do Pena”, a área possui um património florístico significativo, com a presença de espécies raras e/ou ameaçadas, muitas delas endemismos lusitanos, como a Arabis sadina, a Narcissus calcícola, a Iberis procumbens e a Silene longicilia. É importante também referir a recuperação em curso da floresta autóctone, nomeadamente dos carvalhais de carvalho-cerquinho e dos bosquetes de azinheira. No que à fauna diz respeito, é de realçar a importância da existência de um conjunto vasto de cavidades que albergam algumas das maiores populações de morcegos cavernícolas do país (o morcego foi escolhido como símbolo do Parque por isso mesmo), como o  Morcego-de-peluche, o Morcego-rato-grande, o Morcego-de-ferradura-mediterrânico e o Morcego-lanudo. Também a Gralha-de-bico-vermelho possui aqui uma das suas populações mais significativas.

Para contrabalançar, mas sem conseguir contrariar a agudização dos impactes das atividades humanas sobre o território, desde finais da década de oitenta que têm sido executadas medidas que foram contribuindo para proteger e promover os valores naturais, como a recuperação de áreas degradadas associadas à exploração de pedra de calçada, a aposta no turismo de natureza (o PNSAC foi a primeira área protegida a possuir Carta de Turismo de Natureza aprovada), a salvaguarda do património paleontológico e espeleológico, a não autorização de instalação de aerogeradores no Planalto de Santo António e a preservação da Serra de Aire e da Depressão de Alvados, ambas as situações com reflexos positivos em termos paisagísticos.
A área protegida continua a apresentar enormes potencialidades em sectores como o turismo de natureza, a investigação científica e a agricultura, em particular a biológica. Os incentivos ao pastoreio extensivo — a forma economicamente mais viável e ambientalmente sustentável de manter as faixas de gestão de combustível — e à recuperação da floresta autóctone deverão também ser incrementados.

Continuam no entanto presentes um conjunto de ameaças e de problemas que persistem e que devem ser objeto de atenção por parte das políticas públicas, de forma a salvaguardar a manutenção da integridade e do estatuto desta área protegida. Deverá ser dada prioridade, em particular, ao estancar das pressões das atividades económicas geradoras de impactes ambientais, como a indústria extrativa, a produção e transporte de energia e a produção florestal de espécies de rápido crescimento, e também à resolução do problema de qualidade da água do aquífero, já que estamos na presença de uma importante reserva de água subterrânea que poderá ter que vir a ser utilizada num contexto de emergência nacional.

Neste contexto, para avaliar a Área Protegida foi elaborado um quadro, que é colocado em baixo, com base numa análise que apresenta o diagnóstico (Forças e Fraquezas) e o prognóstico (Oportunidades e Ameaças).


Lisboa, 4 de maio de 2014

A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

 


 

 

tabela pnsac

 

 

 

 

Share

Quercus TV

 

Espreite também a Quercus TV.

 

 

Quercus ANCN ® Todos os direitos reservados
Alojamento cedido por Iberweb