É necessário efectuar o alargamento do Parque Natural do Alvão e impedir a construção da Barragem de Gouvães

alvaoComemorou-se, a 8 de Junho, o 31º aniversário da criação do Parque Natural do Alvão (PNAl) e a Quercus fez uma retrospetiva do que foi feito de positivo e negativo nesta Área Protegida e traça cenários com base na definição de ameaças e na identificação de oportunidades.


O PNAl foi criado com o objectivo de preservar os valores naturais únicos da Serra do Alvão, que possui apontamentos geomorfológicos e geológicos de elevado interesse conservacionista, paisagístico e científico, como são exemplos as Fisgas de Ermelo (queda de água do Rio Olo) e o Caos Granítico do Arnal.


Apesar de ser uma área protegida relativamente pequena, com cerca de 7220 ha, as características fitoclimáticas de transição entre as regiões Eurosiberiana e a Mediterrânica, permitem a existência de uma grande diversidade de habitats naturais, que vão desde os carvalhais de carvalho-roble e carvalho-negral, as florestas ribeirinhas com amieiro e freixo e nas zonas mais altas os urzais-tojais húmidos com a presença de Erica tetralix e Genista micrantha. Em toda a área do PNAl, nos diversos habitats é possível observar algumas espécies endémicas, raras ou com estatuto de conservação como a açucena-brava (Paradisea lusitanica), o têucrio (Teucrium salviastrum), Genciana pneumonanthe ou até a Drosera rotundifolia, uma conhecida planta carnívora. Ao nível da fauna, esta é uma importante área para a conservação de espécies ameaçadas como o Lobo (Canis lupus), Morcego-de-franja (Myotis nattereri), Falcão-peregrino (Falco peregrinus) e a Gralha-de-bico-vermelho (Phyrrhocorax pyrrhocorax).

 

A integração da Área Protegida na Rede Natura 2000, com a designação do Sítio de Importância Comunitária Alvão/Marão, foi importante para a preservação dos valores naturais e para os valorizar no contexto europeu. A aposta local em produtos de qualidade como a Carne Maronesa distinguida com DOP – Denominação de origem protegida, a carne de Cabra bravia, o mel e de artigos artesanais feito em linho, têm contribuído para a promoção turística de região e manutenção de algumas atividades tradicionais promotoras de biodiversidade.

 

Contudo, esta área protegida tem vindo a ser afectada por vários factores que degradam os valores naturais da região, nomeadamente, a proliferação de infra-estruturas, como vias de comunicação, linhas de alta tensão, parques eólicos e seus acessos, provocam a fragmentação dos habitats e a sua perturbação, com impactos negativos muito significativos em espécies ameaçadas, como o Lobo, fortemente ameaçado pelo isolamento das alcateias e o baixo sucesso reprodutivo. O Parque Natural é ainda confrontado com alguns factores de ameaça, como o abandono da atividade agrícola provocado pelo despovoamento da região, com alteração do uso do solo e aumento do risco de incendio, a elevada pressão turística desregrada em áreas sensíveis, a degradação da qualidade da água por insuficiente tratamento das águas residuais, a instalação de monoculturas de pinheiros e eucaliptos e a expansão de espécies exóticas invasoras da flora (Acacia sp. e Hakea sp). A prevista construção da barragem de Gouvães, se bem que fora do Parque, afectará os corredores ecológicos.

 

Face ao exposto, a Quercus vem assim exigir a ampliação da área protegida de forma significativa, salvaguardando áreas de enorme relevância para a conservação assim como garantindo a existência de corredores ecológicos que garantam a livre circulação de espécies como o lobo, bem como o abandono imediato da intenção de construir a Barragem de Gouvães.

 

Ao nível da conservação, é de igual forma fundamental intervir na área florestal, promovendo práticas silvícolas sustentáveis, com a plantação de espécies autóctones em detrimento de monoculturas de pinheiros e eucaliptos e a criação de um programa de controle de espécies exóticas invasoras; e um forte investimento na fiscalização e vigilância na área do parque, com mais recursos humanos e meios materiais, permitindo um maior controlo sobre as práticas de turismo ilegal, a pesca ilegal, o abate espécies protegidas e a prevenção a incêndios.

 

Consideramos também essencial um plano de acessibilidades que ordene a movimentação do visitantes dentro do Parque, com especial atenção a dar ao trânsito de veículos motorizados.

 

No que concerne à exploração sustentável numa área com enorme potencial em sectores económicos como a agricultura e o turismo, é importante uma continuidade na política pública de apoios e incentivos às práticas agrícolas, nomeadamente a pastorícia com raças autóctones, fundamentais para a manutenção de habitats de montanha; incentivo à dinamização de um turismo sustentável que explore as especificidades naturais, gastronómicas e culturais, devidamente apoiado com a criação de estruturas de apoio à visitação, roteiros recreativos e de lazer, com um programa de divulgação que permita contrariar a sazonalidade verificada nesta região.

Neste contexto, para avaliar a Área Protegida foi elaborado um quadro, que é colocado em baixo, com base numa análise que apresenta o diagnóstico (Forças e Fraquezas) e o prognóstico (Oportunidades e Ameaças).

 

 

 

 

Forças

 

Fraquezas

Diagnóstico

·         Integra a Rede Natura 2000, através da integração de parte da área do parque no SIC Alvão/Marvão;

·         Interdição do exercício de caça em duas zonas;

·         Presença de formas geomorfológicas de elevado interesse conservacionista, paisagístico e cientifico, as Escarpas do Rio Olo;

·         Presença de formas geológicas de elevada importância paisagística e conservacionista, o Caos Granítico do Arnal;

·         Elevada diversidade biológica com a presença de diversos habitats;

·         Presença de endemismos ibéricos  lusitânicos de espécies com elevado valor para a conservação;

·         A presença de espécies cavernícolas, de aves de rapina e do lobo;

·         Aposta em produtos regionais de qualidade.

·         Implantação de parques eólicos;

·         Inexistência e/ou pouca eficácia dos sistemas de tratamento de resíduos;

·         Reduzida dimensão da área do parque natural;

·         Degradação da qualidade da água;

·         Destruição de vegetação ripícola;

·         Abandono de terrenos agrícolas provocado pelo despovoamento da região;

·         Pastoreio intensivo;

·         Monoculturas de pinheiro e eucalipto;

·         Expansão de espécies exóticas invasoras da flora e fauna;

·         Substituição de técnicas de regadio tradicionais por infra-estruturas cimentadas;

·         Aumento da pressão turística em áreas sensíveis;

·         Aumento da procura de desportos motorizados e escalada;

·         Aumento da construção de habitações que não respeitam a arquitectura tradicional.

Prognóstico

·         Alargamento da área do Parque natural;

·         Melhoramento e/ou construção de infra-estruturas de saneamento básico;

·         Aumento da fiscalização e vigilância na área do parque;

·         Criação de um programa de controlo de espécies exóticas invasoras da fauna e flora;

·         Criação de um programa de incentivos e apoio financeiro à fixação da população na região e à promoção de actividades tradicionais;

·         Implementação de medidas de conservação da área florestal;

·         Promover o envolvimento da população local nas questões do PNAl;

·         Certificação de produtos regionais;

·         Implementação de medidas que promovam a prática de turismo sustentável.

·        Abandono de atividades tradicionais;

·        Desaparecimento de ofícios tradicionais;

·        Elevado risco de incêndio e queimadas;

·        Pressão urbanística com a construção de segunda habitação e alojamentos turísticos;

·        Pressão turística;

·        Uso de técnicas ilegais no exercício da pesca;

·        Caça ilegal;

·        Eventual extinção local de espécies definidas como de conservação prioritária para a área protegida;

·        Construção da Barragem de Gouvães.

 

Oportunidades

Ameaças

 

 

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