A Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, com base nos dados disponibilizados pela Rede Eléctrica Nacional na passada sexta-feira para o período Janeiro e Julho de 2005, efectuou um conjunto de cálculos envolvendo as emissões de gases de efeito de estufa das diferentes centrais termoeléctricas e concluiu que, devido à quebra em 55% neste período por comparação com o período homólogo de 2004 do total de produção hídrica, as emissões de dióxido de carbono equivalente aumentaram 35%.

 

Portugal é um país que assenta grande parte da sua produção eléctrica na componente hídrica, pelo que a seca está a obrigar a uma maior produção recorrendo ás centrais térmicas a carvão, gás natural e fuel-óleo. O consumo de electricidade corresponde a cerca de 20% do consumo de energia final em Portugal. Porém, não é apenas a seca mas também um aumento do consumo da ordem dos 6% (comparando os dois períodos homólogos de Janeiro a Julho de 2004 e 2005), muito acima da evolução do nosso Produto Interno Bruto, que obriga a uma maior produção e consequentes emissões e para o qual não tem conseguido haver resposta da parte dos sucessivos Governos, nomeadamente porque nem sequer se percebe bem as suas causas.

 

Electricidade proveniente de fontes renováveis corresponde apenas a 13% do total de consumo; eólica representa 3%

 

De acordo com os dados disponibilizados para o período de Janeiro a Julho de 2005, a produção de electricidade por fontes renováveis representou apenas 13% do consumo total – 10% de origem hídrica e 3% de origem eólica. A Quercus aproveita assim para lembrar que é absolutamente necessário um programa de conservação de energia a par de uma aposta combinada em todas as energias renováveis: eólica, solar fotovoltaica, solar térmica, biomassa, hídrica, geotérmica, marés, obviamente tendo em conta uma análise que pondere os seus impactes ambientais, mas muito para além do que tem vindo a ser estimulado. Convém lembrar que o objectivo vinculativo de acordo com uma Directiva Europeia é que em 2010, 39% da electricidade seja produzida a partir de fontes renováveis.

 

Clima está a mudar e Portugal tem de se começar a adaptar – previsões apontam para clima mais quente, com maior frequência de secas que além disso terão maior intensidade; 2005 é o ano com maior número de ondas de calor desde 1940

 

Em Portugal, o denominado projecto SIAM, coordenado por cientistas portugueses de topo em cada uma das áreas, do clima aos solos, dos recursos hídricos à saúde, apresenta estimativas específicas para o nosso país. Em termos de evidências, a temperatura de Portugal tem tido uma tendência crescente desde 1970; a precipitação tem vindo a decrescer nos últimos 70 anos, havendo uma redução significativa da chuva na Primavera; há uma tendência para o aumento de cheias e secas e o nível do mar tem aumentado cerca de 1 a 2 centímetros por ano. Quanto às consequências, o aumento de temperatura média será de 4 a 7 graus entre 1990 e 2100.

 

Os eventos extremos – a seca verificada e as várias ondas de calor (de acordo com o Instituto de Meteorologia, duas já classificadas este ano e outra que poderá ser identificada com base nos últimos dias), são um sintoma claro das alterações climáticas que perspectivam um futuro difícil para o nosso país. Os dados presentes (http://web.meteo.pt/clima/clima_ondacalor.html) mostram uma onda de calor em 1981, uma em 1991, uma bastante violenta em 2003 e à partida pelo menos três em 2005.

 

Assim, exigem-se medidas no sentido da redução das emissões dos gases de efeito de estufa a par de medidas de fundo ao nível do abastecimento de água, das culturas agrícolas, da construção de edifícios, do investimento na poupança de energia e nas energias renováveis para conseguir lidar com estes fenómenos.

 

Incêndios foram responsáveis por aumento de quase 6% das emissões de gases de efeito de estufa em Portugal em 2003; situação poder-se-á repetir no ano de 2005

 

A mudança de uso do solo e a floresta tem tido nos últimos anos um papel, embora modesto, na redução das emissões de gases de efeito de estufa. A contabilidade geralmente efectuada para comparação das emissões de gases de efeito de estufa entre anos não considera a mudança do uso do solo e a floresta, factores que no entanto farão parte da avaliação do cumprimento do Protocolo de Quioto no final do período de avaliação, entre 2008 e 2012. Assim, por motivos meramente conjunturais, dado que o ano hidrológico de 2002/2003 foi consideravelmente húmido e a produção de electricidade nas barragens foi significativa, Portugal viu as suas emissões de gases de efeito de estufa se reduzirem de 43,8 para 38,5% de 2002 para 2003 em relação a 1990. 

 

Estas contas, como já se referiu, excluem o que se passa com o uso do solo e a floresta. Se tal for tido em conta no ano de 2003, à custa dos fogos florestais, verificou-se um aumento de 5,7% das emissões de 29,1% para 34,8%, tendo por base o ano de referência do Protocolo de Quioto que é 1990. As diferenças no aumento percentual em relação a 1990 entre as duas metodologias prendem-se com o facto de neste ano-base o uso do solo e a floresta portuguesa terem representado praticamente 6 megatoneladas do total de emissões de gases de efeito de estufa. Em 2002, esta tendência estava já invertida e o uso do solo e a floresta funcionavam como sumidouro e contribuíam para a redução do total global de emissões. Em 2003 e provavelmente agora também em 2004 e 2005 essa tendência está novamente a inverter-se.

 

Enquanto que no ano de 2002 a mudança de uso do solo e a floresta foram responsáveis por um saldo negativo de 1,2 milhões de toneladas, em 2003, a ocorrência de fogos florestais conduziu a um saldo positivo em termos de emissões da ordem das 7 milhões de toneladas. Assim, apesar do benefício de 2003 ter sido um ano húmido, na globalidade das emissões o resultado foi negativo. Apesar de em 2005 a área ardida ser por agora sensivelmente um quarto da de 2003, mais uma vez a evolução de Portugal no sentido do cumprimento do Protocolo de Quioto ficará ameaçada, porque o papel de sumidouro associado ao uso do solo e da floresta será ultrapassado pelo resultado dos fogos florestais.

 

Lisboa, 8 de Agosto de 2005

 

A Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

Para mais informações contactar Francisco Ferreira, Vogal da Direcção Nacional, telemóveis 96-9078564 ou 93-7788470 ou Hélder Spínola, Presidente da Quercus, telemóvel 93-7788472.

 

 

 

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