Ao longo dos últimos anos, a situação dos transportes colectivos de superfície na cidade de Lisboa efectuados pela Empresa dos Carris de Ferro de Lisboa (CARRIS) tem-se vindo a deteriorar, com uma diminuição de ano para ano do número de passageiros transportados, à qual tem vindo a corresponder, inevitavelmente, uma perda de rentabilidade da empresa e uma diminuição no número de trabalhadores por ela empregados.

Causas desta situação são a manutenção de uma baixa velocidade média dos veículos – a qual se mantém muito inferior à conseguida noutras cidades europeias – conjugada com a irregularidade no serviço causada por autocarros e eléctricos presos no tráfego ou imobilizados por automóveis indevidamente estacionados. Tentando colmatar estes problemas, a administração da CARRIS tem vindo a efectuar, de ano para ano, cortes nos serviços oferecidos, nomeadamente nos horários nocturnos e de fim-de-semana, sendo que prevê para o próximo ano uma redução de 7% da oferta.

Se prosseguir esta catastrófica política de gestão da oferta de transporte público è previsível que cresça a atracção pelo uso do automóvel particular, agravando-se o ciclo infernal que tem como consequências um aumento ruído, uma maior ocupação do espaço urbano, um crescimento da poluição da atmosfera ao nível local e global e uma degradação geral do espaço público da cidade, o que tem custos incalculáveis ara a vida económica e social dos cidadãos e das empresas.

A QUERCUS denuncia que desta situação são responsáveis os poderes públicos, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa e o Governo central, que não têm tomado as medidas necessárias a um aumento da rapidez, pontualidade e fiabilidade dos transportes oferecidos pela CARRIS. Uma política nesse sentido beneficiaria grandemente os utilizadores desses transportes e, através do aumento do seu número, melhoraria o ambiente da cidade, a situação financeira da empresa, e as perspectivas dos seus trabalhadores que são também prejudicados pela inexistência de modernas políticas de gestão participada na CARRIS, o que se torna mais evidente perante as greves a que temos assistido ultimamente.

No nosso entender, por motivos ambientais óbvios, o transporte colectivo deve ter toda a primazia no interior das cidades (e não só), para o que é necessário que a sua rapidez, pontualidade e fiabilidade o tornem atraente mesmo aos olhos daqueles que estão em condições físicas e financeiras de recorrer ao transporte privado. Para isso pensamos ser necessária uma política coerente e determinada, a aplicar continuadamente ao longo de vários anos, nomeadamente no sentido de:

- Ordenar o estacionamento. Punir de forma expedita e severa o estacionamento de automóveis que se efectue com prejuízo para a liberdade de circulação dos transportes colectivos.

- Criar faixas de rodagem atribuídas exclusivamente aos transportes colectivos (não confundir com faixas BUS, às quais os automóveis privados continuam a ter acesso). Isso pode ser feito de forma relativamente simples nas muitas e largas avenidas de Lisboa.

- Separar as ruas atribuídas ao transporte colectivo das atribuídas ao transporte em automóvel particular. (Um plano nesse sentido para a Baixa lisboeta, que esta Associação apresentou recentemente, foi ignorado pela Câmara Municipal de Lisboa.) Esta medida beneficiaria também os automobilistas.

- Dar prioridade aos transportes colectivos em todas as intersecções e cruzamentos.

- Aumentar consideravelmente a oferta do modo eléctrico de transporte cujas vantagens são evidentes no concerne à redução da poluição ao nível local, sendo os veículos históricos mais adequados às zonas mais envelhecidas da cidade onde podem desempenhar importantes funções no que diz respeito à pequena distribuição de passageiros.

A QUERCUS continuará a pugnar por uma política que, deliberadamente, privilegie os transportes colectivos, com vista a que, a longo prazo, eles constituam uma opção viável e preferencial para toda a população e não, como se tem vindo a verificar, se restrinjam cada vez mais aos de fracos recursos financeiros e àqueles com limitações físicas de qualquer ordem. Por último apelamos à criação, com carácter de urgência, da já anunciada autoridade metropolitana de transportes, entidade fundamental para coordenar e dar coerência à oferta de transporte público na área metropolitana de Lisboa.

A Direcção do Núcleo Regional de Lisboa da QUERCUS

24 de Março de 2000

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