A quantidade de água disponível num determinado local depende das condições climáticas e das características geológicas
Os desafios na gestão da água
A água é essencial à vida. Faz parte das células dos organismos, sustenta ecossistemas e é indispensável à realização das actividades humanas. A água é o elemento mais abundante do planeta e ocupa cerca de 71% da sua superfície. Apesar disso, apenas 2,5% está disponível para nosso uso, estando a maior parte cativa nos Oceanos. A conservação deste recurso enfrenta inúmeras dificuldades. O aumento da população e da diversidade de actividades praticadas pelo Homem conduzem a um maior consumo de água, reduzindo as reservas de recursos hídricos. Os níveis crescentes de poluição diminuem a qualidade da água, contribuindo também para a redução da quantidade disponível. As desigualdades na distribuição da água causam assimetrias sociais, económicas e políticas. A gestão sustentável dos recursos hídricos tornou-se num dos principais desafios da actualidade.
Sandra Oliveira
Disponibilidade de água
O volume total de água na Terra tem-se mantido constante desde há milhões de anos, cerca de 1,4 biliões km3, embora a quantidade repartida pelas diferentes formas (sólida, líquida e gasosa) se tenha alterado. Os oceanos contêm a maior fatia, 97,5%, que não é directamente utilizável pelo Homem. Apenas cerca de 2,5% (35 milhões de km3) estão disponíveis como água doce: 2,15% estão aprisionados nos glaciares e neves eternas e menos de 1% compõem os lagos, os rios, as zonas húmidas e a atmosfera. O ciclo hidrológico ou ciclo da água é o mecanismo planetário que permite a passagem da água pelas várias esferas do planeta (biosfera, geosfera, hidrosfera e atmosfera), nas suas diferentes formas. A distribuição da água é extremamente desigual, em função de desígnios naturais que são intensificados por uma acção antrópica cada vez mais influente. A distribuição da água doce à superfície depende das condições climáticas, resultantes do intercâmbio existente entre os oceanos, os continentes e a atmosfera. O sol é o motor do sistema climático, distribuindo energia de forma díspar pela superfície do Globo. A quantidade de água disponível num determinado local depende das condições climáticas e das características geológicas, que por sua vez influenciam o regime dos rios, o escoamento de água à superfície e o armazenamento subterrâneo.
A água que utilizamos pode ter diferentes origens:
Águas de superfície – são constituídas por águas interiores, ou seja, todas as águas lênticas ou correntes à superfície do solo que não sejam costeiras nem de transição. Pode ser captada através dos rios e ribeiras, lagos, albufeiras e canais.
Águas subterrâneas - todas as águas que se encontram abaixo da superfície do solo na zona de saturação e em contacto directo com o solo ou com o subsolo. Pode ser captada através de nascentes, furos e poços ou por bombagem onde exista água acumulada.
Aquífero: uma ou mais camadas subterrâneas de rocha ou outros estratos geológicos suficientemente porosos e permeáveis para permitirem um fluxo significativo de águas subterrâneas ou a captação de quantidades significativas de águas subterrâneas.
Para além das águas de superfície e subterrâneas, que são captadas, tratadas e distribuídas para consumo, existem ainda:
Águas costeiras - as águas de superfície que se encontram entre terra e uma linha cujos pontos se encontram a uma distância de uma milha náutica, na direcção do mar, a partir do ponto mais próximo da linha de base a de delimitação das águas territoriais, estendendo-se, quando aplicável, até ao limite exterior das águas de transição.
Águas de transição - massas de águas de superfície na proximidade da foz dos rios, que têm um carácter parcialmente salgado em resultado da proximidade de águas costeiras, mas que são significativamente influenciadas por cursos de água doce.
Directiva-Quadro da Água, Directiva n.º 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 23 de Outubro de 2000. Transposta para a ordem jurídica nacional pela Lei da Água, Lei n.º50/2005, de 29 de Dezembro de 2005
Qualidade da água
A água pode, por vezes, revelar-se nociva, quando contém elementos e compostos químicos que prejudicam a saúde. Quando não é tratada, a água é um importante veículo de transmissão de doenças. As Nações Unidas estimam que a saúde de cerca de 1,2 biliões de pessoas em todo o mundo é afectada negativamente pela falta de qualidade da água, incluindo 15 milhões de crianças que morrem anualmente devido a doenças relacionadas com a água. A contaminação da água reduz a quantidade de água disponível para consumo, agravando as assimetrias e conflitos existentes pela posse da água e pondo em risco a sobrevivência de espécies, de ecossistemas e do estilo de vida moderno.
A água que chega às nossas torneiras é previamente tratada. A água no seu estado natural contém elementos químicos potencialmente nocivos ao ser humano. A água captada passa por um processo de desinfecção, que conduz à destruição de microrganismos causadores de doenças (vírus e bactérias) que possam existir. Mesmo que, à partida, a água não esteja contaminada com estes elementos patogénicos, a desinfecção é aplicada na mesma, para prevenir potenciais contaminações durante o transporte e distribuição da água. Existem outros tratamentos possíveis, cuja aplicação depende das características da água captada, da tecnologia disponível e dos custos do processo. Estes tratamentos são: correcção de acidez, remoção de ferro e manganês, turvação de cheiros e sabores, correcção de dureza (remoção de cálcio e magnésio). O resultado final, que chega às nossas torneiras, deve ser uma água incolor, inodora, sem turvação e sem pesticidas, com pH e teor de alcalinidade aceitáveis e isenta de microrganismos patogénicos.
Depois de utilizada, com uma composição física e química diferente da origem, a água é reconduzida ao meio natural, o qual pode não ter capacidade para absorver e reciclar todos os elementos que a água contém. O tratamento das águas residuais é fundamental para manter o equilíbrio e conservar os recursos hídricos. Para além disso, o meio receptor da água utilizada é, grande parte das vezes, o meio emissor da água para captação. O tratamento das águas residuais torna-se também um meio de prevenção contra a contaminação das águas para consumo e reduz os custos de tratamento da água captada.