Quercus lamenta a saída dos EUA do Acordo de Paris

Acordo de Paris pode sobreviver a Trump com o reforço da ambição climática

 

Donald Trump acabou de confirmar que os Estados Unidos da América (EUA) vão abandonar o Acordo de Paris, deixando agora o resto do mundo perante a grande incógnita sobre como esta decisão sem precedentes do segundo maior poluidor mundial irá afetar a estabilidade do Acordo e o empenho dos outros 194 países que o ratificaram em reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa de modo a cumprir o principal objetivo de manter o aumento da temperatura do planeta bem abaixo dos 2o Celsius.

 

acordo de parisEsta decisão de Donald Trump foi ao encontro de uma das suas principais bandeiras de campanha, sustentada numa teoria de cepticismo face a sólidas bases científicas que têm vindo a comprovar a ligação entre o aquecimento global do planeta e a emissão de gases com efeito de estufa, em grande parte com origem na queima de combustíveis fósseis.

 

A Quercus considera que, apesar de não ser totalmente surpreendente esta saída dos EUA do Acordo de Paris, é agora fundamental que o resto do mundo honre o árduo trabalho que esteve por detrás do Acordo de Paris e se mantenha unido no objetivo comum de alavancar a transição energética para uma economia de baixo carbono.

 

É obviamente preocupante que os EUA, grande economia mundial e país que foi berço de grande parte da base científica e académica que legitima a tese do aquecimento global, abandone agora o barco, até porque se trata do segundo maior poluidor a nível global.

 

Virando costas ao Acordo de Paris, ratificado por Obama em 2015, os EUA isolam-se no cenário internacional, acompanhados apenas por mais dois países que não ratificaram o Acordo: a Nicarágua e a Síria. Por outro lado, deixam aberta a porta para a China assumir o papel de principal líder no combate às alterações climáticas. A China, que é o principal poluidor mundial, já reafirmou a intenção de manter o empenho na redução das emissões poluentes e tem apostado fortemente nas energias renováveis.

 

Legalmente, esta retirada dos EUA do Acordo de Paris não irá suceder de um dia para o outro, sendo necessários pelo menos 3 anos de negociações. Isto significa que nunca será realidade antes de Novembro de 2020, dando teoricamente tempo a uma eventual nova Administração para reverter esta decisão.

 

Este desfecho não surpreende, tendo em conta os vários passos dados já pela Administração Trump no sentido de reverter o caminho lançado por Obama ao nível da transição energética e que culmina agora com o boicote ao Acordo de Paris.

 

Agora, é fundamental que os restantes países, especialmente as maiores economias mundiais do G7, se mantenham firmes no cumprimento dos objetivos e no reconhecimento da sua importância, de modo a fazer com que a política de isolacionismo de Trump se volte contra si próprio e evitar um efeito dominó. Esta é uma oportunidade também para a União Europeia falar a uma só voz e assumir o papel de liderança, assente numa política climática (ainda mais) ambiciosa.

 

Por outro lado, também dentro de fronteiras, Trump terá de lidar com as consequências da sua decisão, na sequência das vozes críticas que se ouviram dentro da sua própria Administração, das divergências no próprio Partido Republicano e até dos apelos da maior petrolífera do pais, a Exxon Móbil, que se manifestou a favor da permanência no Acordo de Paris.

 

Ironicamente, o principal argumento de ‘devolver postos de trabalho aos americanos’ desmonta-se muito facilmente, tal como tem vindo a ser reforçado por vários grupos económicos norte-americanos. A aposta nas energias renováveis tem um enorme potencial de criação de emprego nos EUA, devolvendo o dinamismo económico às zonas rurais mais pobres, isoladas e despovoadas – alguns dos chavões da campanha eleitoral de Trump.

 

Segundo dados da American Wind Energy Association, o arrendamento de terrenos para a instalação de parques eólicos rende aos proprietários rurais dos EUA mais de 245 milhões de dólares (mais de 231 milhões de euros) por ano. Por outro lado, as empresas de energia solar do país empregaram mais de 200 mil pessoas em 2016, tendo a maior parte desses postos de trabalho sido criados também em zonas rurais.

 

A Quercus reitera que a evidência dos factos científicos e os inegáveis impactos ambientais, sociais e económicos das alterações climáticas devem prevalecer como principal argumento e linha orientadora no combate ao aquecimento global do planeta, sendo a melhor estratégia para colocar a descoberto tentativas pouco fundamentadas de descredibilização ou de pura irresponsabilidade.

 

 

Lisboa, 1 de junho de 2017

A Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza

 

 

 

 

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